Eduardo…

23fev08

São seis horas e ela não vai ligar. Eduardo sabe que ele não vai ligar. Ele é esperto, ela já nasceu sabendo. São seis horas e quarenta e dois minutos. Ela estava pela rua com os amigos quando atendeu o celular, foi muito simpática e disse que ligaria assim que chegasse em casa. Mas ela não vai ligar, Eduardo tem certeza. São sete horas e vinte minutos e, ciente de que ela não vai ligar, Eduardo faz seu miojo com o telefone sem fio ao lado, só para garantir. Ela não vai ligar porque quando ela chegar em casa já vai estar tarde. São oito horas e oito minutos. Eduardo organiza a bagunça do quarto com o telefone no bolso, por via das dúvidas. Ela não vai ligar porque assim que ela fechou o celular naquele boteco esfumaçado, ela se esqueceu de que havia falado com ele. São oito horas e quarenta e nove minutos. Eduardo assiste uns enlatados americanos e uns pedacinhos da novela e ela não liga. Claro que não. Ela não vai ligar porque ele é um homem. E homem e mulheres, quando olham para um telefone, vêem o mesmo objeto, mas não vêem a mesma coisa. São nove horas e vinte e sete minutos. E Edaurdo, veterano de muitos e muitos não-telefonemas, sabe que ela não vai ligar. Ele sabe, mas anda com o telefone pela casa. São nove horas e cinqüenta e quatro minutos e ela não liga enquanto Eduardo, com o telefone em cima da pia, da aquela mijada e depois toma um banho. São dez horas e vinte e um minutos e quando o telefone toca Eduardo dá um pulinho e sente dor no estômago mesmo sabendo que não é ela. A certeza de que não é ela ligando, estranhamente aumenta a esperança. Eduardo atende, conversa um pouquinho com sua mãe e libera a linha. Mas ela não liga. São dez horas e cinqüenta e três minutos. Ela não vai ligar porque vai chegar tarde do boteco, meio bêbada, vai estacionar o carro torto na vaga, vai demorar para acertar a chave na fechadura, vai tropeçar no viradinho do tapete, vai largar a camisa amassada no corredor e vai se jogar na cama de calça e sapatos. Eduardo sabe muito bem que ela não vai ligar, porque homens e mulheres quando dizem que vão ligar, usam as mesmas palavras, mas querem dizer coisas diferentes. São onze horas e treze minutos. Ela não liga, mas Eduardo dorme com o telefone ao seu lado, a gata preta aos seus pés, um sono bobo, um sono leve,um sono que não acredita em nada, um sono que acredita em tudo. São onze horas e quarenta e dois minutos.



One Response to “Eduardo…”

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