“The same old places and the same old songs”

29fev08

Retratos de uma quinta-feira…

(Camiseta branca. Se as mulheres soubessem o efeito que camiseta branca… É claro que ela sabe o efeito da camiseta branca, you idiot. Mas pelo menos podia não dançar daquele jeito… Yo, se a sua chance é zero, melhor ver a camiseta branca dançando do que não ver a camiseta branca dançando.)

Curva do balcão, aquele copo meio cheio. O baixista, que acabara de crocar sua primeira entrada em dois anos de banda, paga uma rodada de cerveja. Brindes. Todo mundo meio que grita para superar o zumbido do set recém-encerrado -que ainda nos ocupa os ouvidos- e a música enlatada que vem da pista. Papo de músico: temos mais uma entrada. (Na pista, ela e a amiga ensaiam uma coreografia engraçadinha, e riem, riem: maconha, seria o meu diagnóstico. Ou, melhor, pior, nem sei: talvez alegria.)

Lentamente a banda se dispersa: xaveco, banheiro, fumar quantidade desumana da erva mardita no estacionamento do bar. Eu consigo espaço na última banqueta do balcão, encostado à parede, e me dedico a anotar diagramas de arranjos em um guardanapo de papel. De vez em quando alguém me cumprimenta. Mas em geral passo despercebido.

Camiseta Branca e a amiga se aproximam do balcão, na diagonal oposta ao lugar que ocupo. (Nada de encarar, you idiot.) Continuo rabiscando o guardanapo, com aquela sensação paranóica de que alguém está me olhando. (Ela está olhando: melhor não agir como um idiota, you idiot.) Levanto os olhos, trocamos um sorriso. Ela e a amiga voltam para a pista. (O sentimento que vai definir o resto da tua vida, young padawan, é exatamente essa mistura de decepção e alívio que assoma quando você a vê se afastando: treasure it.)

Última entrada, longa: o dono do bar sempre pede meia hora a mais, caso as vendas de bebida continuem fortes por volta da uma da manhã. Camiseta Branca e a amiga dançam na beirinha do palco. (A cada vez que ela sorri, esqueço a letra. “Gold Coast slave-ship bound for cotton fields”, já cantei essa nhaca 750 vezes.) Quando o show acaba, restam sempre os mesmos dois grupos: os bêbados, que estariam ali mesmo sem música, um pouco mais felizes porque em noite de show o bar fecha mais tarde; e a macambúzia catigoria dos tentando-comer-alguém. Enquanto acerto minha conta, Camiseta Branca e amiga, ainda sorridentes, rejeitam cinco abordagens.

(Tá vendo, idiota? Rejeitar é o grande prazer das mulheres.)

No apartamento dela, saindo do banho eu tropeço em uma camiseta branca. Pego minhas carteira e celular, e digo: “Se vocês soubessem o efeito que essa camiseta causa na gente…”Sonolenta, ela sorri com cara de quem sabe perfeitamente o efeito que isso causa na gente, estende os braços para um abraço e cai dormindo. O sol murcho de outono me recebe com a mais perfeita indiferença, lá fora. São 14:22 e acabo de chegar em casa, e o sol continua murcho, me recebendo com a mais perfeita indiferença…

Só penso em uma coisa: preciso me livrar desse telefone!



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